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O líder estrábico
por JOSÉ ALBERTO DA SILVA JÚNIOR - quarta, 3 novembro 2010, 11:12
 

Por Eugenio Mussak em Revista Melhor

Eugenio MussakEntre as dezenas de classificações de tipos de liderança que existem, gosto especialmente da mais simples, a que analisa o líder de acordo com seu foco. Podemos definir liderança como a capacidade de influenciar comportamentos e conduzir pessoas em direção a um propósito. Estamos, então, diante de duas variáveis: pessoas e resultado.

Pronto, está feita a distinção. Há líderes mais focados em resultados e outros, em pessoas. O líder focado no resultado costuma ser considerado autoritário. Exige eficácia e premia a competência. Não é tolerante com falhas, é ambicioso e obsessivo com a qualidade. Para ele, muitas vezes, o fim justifica os meios e costuma usar as pessoas exatamente assim, como o meio necessário para chegar ao resultado.

Já o líder que foca nas pessoas é alguém que gosta de gente, costuma praticar a empatia, comunica-se bem, entende as dificuldades e, acima de tudo, considera-se parte da equipe. A equipe é que tem um líder, não é o líder que possui uma equipe.

A verdade é que, ainda que as pessoas que exercem cargos de liderança possam ter a tendência natural de um tipo ou do outro, não há como negar a importância de se observar os dois lados. Quando se privilegia o resultado esquecendo as pessoas, corre-se o risco de não se manter a capacidade de atingir os resultados ao longo do tempo. Ou seja, alguém muito autoritário e despótico arrisca-se a obter bons resultados apenas uma vez. Por outro lado, aquele que privilegia a relação com as pessoas, exercitando a democracia, mas perdendo o resultado de vista, arrisca-se a ser considerado apenas uma ótima pessoa, um "paizão" que protege, mas não agrega valor para a empresa.

Muito já se escreveu sobre esse assunto, e não só em publicações sobre gestão. Nietzsche, por exemplo, dizia que o futuro seria construído por grandes homens, líderes, que ele chamava de übermensh, ou homens superiores.

Estes deveriam ser fortes e firmes e, se necessário, teriam a liberdade para serem cruéis para atingir os objetivos desenhados. Chegou a afirmar que o resultado é o que importava, e as pessoas seriam apenas a massa de manobra para se chegar a ele. Explica-se por que Hitler gostou tanto de ler Nietzsche, especialmente sua obra Assim falou Zaratustra, em que esse super-homem é descrito.

Entretanto, o mesmo filósofo alemão, em seu livro Aurora, alertou para o fato de que alguns patrões estavam transformando o trabalho de seus empregados em um meio "cerceador do desenvolvimento da razão, dos desejos e do gosto pela independência".

E que dessa maneira, além de desrespeitar o fator humano, estavam criando uma armadilha que os aprisionaria com o tempo, pois, ao cercear o desenvolvimento e desrespeitar os desejos das pessoas, estariam perdendo o patrimônio essencial para chegar aos resultados de modo sustentável. Com esse pensamento, agregado ao anterior, Nietzsche reconheceu a existência da dualidade.

Parece que não há alternativa, se não a do líder manter e até aumentar seu estrabismo e manter um olho posto nos resultados desejados e outro nas pessoas que o ajudarão a chegar lá. Autoridade e democracia não são incompatíveis. Pessoas justificam seu trabalho pelos resultados alcançados, e estes não existiriam sem as pessoas. E nunca é demais lembrar: o exercício da liderança, como capítulo do comportamento humano, é algo que pode ser aprendido, desenvolvido e aprimorado. Basta manter a cabeça e o coração trabalhando juntos.

E os olhos bem vesgos, cada um olhando para um lado.